sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Construtoras se armam para disputa de aeroportos

06/01/2011 - Valor Econômico, Fábio Pupo

A um mês da esperada concessão de aeroportos do governo federal, companhias de menor porte reúnem armas para enfrentar a força das grandes empreiteiras. Segundo especialistas, empresas com pouca experiência em grandes obras podem - de acordo com a forma com que se organizem - ganhar flexibilidade para surpreender ao dar lances no leilão que passará à iniciativa privada os aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília em 6 de fevereiro. Enquanto percebem a movimentação dos concorrentes, grandes grupos temem a vitória do que já chamam de "aventureiros".

Com R$ 733 milhões de receita líquida (o equivalente a 4,5% da receita da Construtora Norberto Odebrecht, a maior no Brasil), a construtora mineira Fidens Engenharia é um exemplo de empresa de menor porte que pretende disputar o processo. Para cumprir o requisito da experiência em operação aeroportuária, exigido pelo governo em edital, entrará no processo junto com a americana ADC & HAS - operadora que já trabalhou em conjunto com a Andrade Gutierrez em outros projetos e chegou a conversar com a Odebrecht.

Segundo Nilton Chaves, gerente de novos negócios da Fidens, a empresa pretende apresentar preços competitivos na disputa - vence o consórcio que ofertar o maior valor pago ao governo em troca da outorga do aeroporto. Perguntado sobre como conseguirá chegar às altas ofertas, Chaves responde que a empresa tem o diferencial de poder "economizar" nas obras. Mesmo assim, ele rejeita a definição de "aventureiro" afirmando que a companhia está reunindo os conhecimentos necessários. "Estamos nos preparando. Quando mineiro fica muito calado, é sinal de que está aprontando alguma".

Para injetar capital no negócio e poder oferecer boas propostas no leilão, a Fidens também negocia a entrada de um fundo de investimento da gestora sul-africana Old Mutual na sociedade.

Para o advogado e especialista em direito aeronáutico Guilherme Amaral, dependendo da forma como se articulam com outros grupos - como fundos de investimento -, empresas menores podem ganhar capital para ofertas mais ousadas. Também pode influir, comenta, o fato de empresas com mais experiência em grandes obras estarem mais limitadas por regras internas de risco e retorno sobre investimentos. Por isso, diz, é possível que haja surpresas no leilão. "Pode haver uma empresa grande, mas limitada pelas próprias regras, e outra pequena, ávida por risco e disposta a tomá-lo". Foi isso que ocorreu no Aeroporto de São Gonçalo do Amarante (RN), primeiro federal a ser concedido, quando empresas não tradicionais no cenário da infraestrutura dominaram a disputa - a maior em faturamento, a Triunfo, só ofereceu uma proposta. Três grupos de médio porte seguiram adiante em quase 90 lances (o ágio final sobre o valor mínimo ficou em 228%).

A advogada Cláudia Bonelli, sócia na área de direito administrativo, regulatório e PPPs do escritório TozziniFreire, concorda com a ideia. Para ela, empresas menores podem ter mais flexibilidade para a disputa. "As maiores se cercam de técnicos e consultores, têm um plano mais estruturado e buscam uma certa taxa de remuneração, dizendo que a partir de certo momento [dos lances] o negócio não compensa. Já as de menor porte podem ter mais flexibilidade para as propostas mais ousadas, caso tenham sociedades com força de capital", diz a especialista.

Entre os grupos menos tradicionais, está também o fluminense MPE (receita líquida de R$ 935 milhões) - que concorreu pelo leilão do aeroporto do Rio Grande do Norte. A companhia pretendia participar da nova disputa com a mineira ARG e a baiana Global, mas foi surpreendido por uma regra do edital que exige experiência de pelo menos cinco anos em aeroportos de grande porte. Agora, busca um operador para uma parceria.

No mercado, também comenta-se que a Carioca Engenharia (receita de R$ 898,5 milhões) ainda estuda os projetos.

O grupo Galvão, com um faturamento mais alto (R$ 2 bilhões, aproximadamente), mas com pouca experiência em concessões, é outro interessado. Em entrevista ao Valor em novembro, o presidente do conselho de administração, Dario Galvão, afirmou que há uma parceria para análise técnica dos projetos com a alemã Flughafen München GmbH, operadora do aeroporto de Munique. As duas ainda estudam as regras para a concessão dos terminais. Além disso, há o grupo Engevix (R$ 1,27 bilhão de receita líquida), que arrematou o aeroporto nordestino e estuda as novas concessões com a argentina Corporación América.

O que mais pode limitar a participação de grupos, menores ou maiores, é o alto valor de investimentos exigido pelos projetos. A Triunfo Participações e Investimentos já alavancada por um grande número de empreendimentos (a dívida líquida sobre Ebitda está em 3,32, o que chama atenção de analistas, embora alguns acreditem que 3,5 ainda seja tolerável), chegou a disputar o leilão do aeroporto nordestino - mas só ofereceu um lance. Carlo Alberto Bottarelli, presidente da Triunfo, disse, durante apresentação dos resultados da empresa do terceiro trimestre, que a empresa mantém o plano de participar de novas concessões, tanto em rodovias como aeroportos. No entanto, "sempre de maneira responsável" - ressalta em texto divulgado.

Ajudam as menores o fato de os investimentos na infraestrutura contarem com ajuda do BNDES, que financiará até 70% - segundo o próprio governo. Além disso, o valor da outorga poderá ser parcelado. O lance mínimo definido pelo governo é de R$ 3,42 bilhões para Guarulhos, R$ 1,47 bilhão para Campinas e R$ 582 milhões para Brasília.

Grandes empresas estão preocupadas especialmente com o que chamam de "aventureiros". Seria uma definição para companhias com pouca experiência que entram no processo a todo custo, mas que depois enfrentam dificuldades para entregar as obras e outras exigências do contrato com o governo. "É um demérito desnecessário chamar de aventureiro. Quem entrar no leilão, tem que comprovar uma série de especificações", diz Amaral.

Entre as empreiteiras tradicionais, é dada como certa no mercado a participação da Odebrecht Transport. Segundo o Valor apurou, a empresa está finalizando estudos e, se decidir disputar os projetos, participará com a Changi - operadora de Cingapura. Também é dada como certa a participação de grupos como Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa (via CCR) e CR Almeida (via EcoRodovias em parceria com Fraport).

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