quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Cabo Frio sai na frente na privatização de aeroportos

20/02/2012 - O Globo

Na Região dos Lagos, no Rio, aeroporto Costa do Sol, lucra com carga e turismo
Henrique Gomes Batista - Enviado especial

CABO FRIO - Os grupos que ganharam as concessões dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília não serão os primeiros a operar terminais internacionais privados do Brasil. Uma experiência na Região dos Lagos mostra que é possível um aeroporto ser funcional, lucrativo, com baixos custos e... privado. É claro que os desafios da Costa do Sol, que administra o aeroporto de Cabo Frio são diferentes dos recém-privatizados, que passam às mãos dos novos donos em maio. Em Cabo Frio, os investidores já planejam o crescimento do negócio, com olhos em pré-sal, Copa, Olimpíadas e no potencial turístico de Búzios e região.

No ano passado, o aeroporto de Cabo Frio transportou 140 mil passageiros, obteve uma receita de R$ 45 milhões, recebeu os maiores aviões cargueiros do mundo e ganhou novos voos regulares. Com isso, a empresa, que já investiu R$ 35 milhões no projeto, além dos R$ 50 milhões de investimentos públicos, tornou-se a maior geradora de ICMS na cidade (graças ao aeroporto foram recolhidos R$ 80 milhões no ano passado) e a empresa chegou, pela primeira vez, no topo do ranking de maior contribuinte de ISS do município.

Aeroporto já é lucrativo

Com três frentes de atuação — cargas, passageiros e apoio offshore para o petróleo, com o embarque diário de quase 500 pessoas em helicópteros — a empresa é, há quatro anos, lucrativa e enxerga um bom potencial para os próximos anos. Mas nem sempre foi assim.

Privatizado pela prefeitura de Cabo Frio em 2001, o aeroporto era focado em turistas. Mas a crise argentina — que tirou turistas internacionais das praias da Região dos Lagos, os atentados do 11 de Setembro e problemas com o tamanho da pista tornaram o aeroporto um “mico”, gerando prejuízos mensais, por muitos anos. Diversos sócios saíram do consórcio que administrava o terminal. Mas a inauguração de uma nova pista e o foco em cargueiros fez o aeroporto crescer.

Além de contar com um voo regular de carga semanal de Miami da ABSA — empresa da LAN, agora sócia da TAM — a empresa, que conta com cerca de 500 funcionários, incluindo terceirizados, recebe cerca de 10 voos semanais com cargas, em frete. Trip e Azul voam regularmente para lá — esta última, a princípio, apenas na alta temporada — mas muitos voos charters de Argentina, Uruguai e Chile aterrissam lá no verão, chegando a três pousos internacionais por sábado.

Sucesso vem do transporte de carga

Carga é a grande chave do sucesso do aeroporto. Graças à atuação mais ágil dos órgãos federais — Polícia Federal (PF) e Receita Federal — na região, Cabo Frio foi sido escolhido por diversas empresas como porta de entrada de mercadorias no país, tirando espaço do Galeão.

— Muitos clientes preferem aqui, porque uma mercadoria pode demorar dez dias para ser liberada no Galeão ou no Porto do Rio. Já tive um cliente que precisava levar umas peças para Angra dos Reis, mas preferiu que a carga viesse para cá em vez de descer no Rio — afirmou o contador Felipe Miranda, que representa seis empresas de petróleo na região.

O aeroporto de Cabo Frio também tem sido usado para alfândega de produtos que chegam pelo Porto do Rio ou pelo Galeão, já que as empresas podem escolher onde querem fazer a aduana. Como o terminal recebe mais material ligado à indústria de petróleo, os procedimentos são acelerados, pois a carga específica não tem que disputar espaço com cargas em geral do Galeão ou dos outros portos do estado.

— Fico feliz com este crescimento da carga. A cidade de Cabo Frio tem o direito de pleitear o posto de hub (centro de distribuição) de cargas no Estado do Rio — disse Francisco Pinto, um dos sócios da Costa do Sul, ao ser questionado se pretende transformar o aeroporto em uma espécie de "Viracopos fluminense" (o Aeroporto de Campinas é o principal ponto para aviões cargueiros em São Paulo). — Não faz sentido empresas do Rio utilizarem aeroportos paulistas para cargas — completa.

A atividade de offshore também está em franca expansão. A atual capacidade de dez helicópteros será triplicada até julho e a Petrobras terá um novo terminal no local. O total de pessoas transportadas passará de 500 para 1.200 por dia. A proximidade com os campos do pré-sal devem fazer a cidade crescer e, com ela, o aeroporto. Para isso, ainda este ano deve sair o projeto de criação de um Condomínio Logístico e Industrial na cidade:

— O governo do estado, como a Codin (Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio), está finalizando o acerto da área junto ao aeroporto para este condomínio de empresas. Acredito que ainda neste ano isso será realidade — conta Ricardo Valentim de Azevedo, secretário de Indústria, Comércio, Trabalho e Pesca de Cabo Frio.

Mas como é a experiência privada para os passageiros? Cátia Silva, moradora de Cabo Frio, gosta da funcionalidade do local:

— As malas chegam logo e o embarque não tem muita complexidade.

A ex-pecuarista Mônica Neiva, moradora de São Paulo, sempre utiliza o aeroporto para chegar mais rápido à sua casa em Búzios. Embora goste do aeroporto, sente alguns problemas:

— Tudo funciona bem, mas faltam alguns itens, como escada rolante ou elevador para o segundo andar, onde está a lanchonete.

Mas isso pode mudar em breve se um novo projeto da Costa do Sol sair: transformar Cabo Frio em um portal de aviação executiva, com foco na Copa e nas Olimpíadas. A ideia é dividir com o Galeão o recebimento de voos internacionais, sejam fretados ou executivos. Após todo o desembaraço no local, os aviões poderiam pousar diretamente no Santos Dumont, que não é um terminal internacional.

— Em todas as Copas e Olimpíadas, sempre houve problemas com estes voos. Nossa ideia é resolver isso, criando um pátio para até 300 aviões, que ficariam estacionados aqui durante o evento, além de permitir o recebimento de voos e passageiros. Para isso, criaríamos um novo terminal de passageiros, mais amplo e confortável — afirma Francisco Pinto, da empresa que administra o aeroporto.

Assim, Cabo Frio ganharia uma nova estrutura para avançar no recebimento de passageiros — que deve ser impulsionado com a criação do Club Med na região, o que pode atrair outros quatro grandes hotéis para a localidade — e o terminal funcionaria como uma nova forma de entrada do país para voos fretados e executivos, que poderia até mesmo desafogar Guarulhos em dias de pico em São Paulo, como em dias de Fórmula 1.

— Este projeto está pronto, estamos conversando com o governador e com a CBF. Acredito que tem tudo para sair, será bom para o país e vai dar um salto na qualidade do estado e da cidade — afirmou Azevedo, da prefeitura local.

Para Pinto, da Costa do Sol, o aeroporto de Cabo Frio é um exemplo de como a iniciativa privada consegue dar respostas rápidas e eficientes nos terminais aéreos. Ele afirma que a estrutura do local é, hoje, melhor que a do Aeroporto de Vitória, no Espírito Santo, que não chega a ser muito maior que o de Cabo Frio e que já recebeu centenas de milhões em investimentos. Ele lembra que as obras privadas costumam ser mais baratas que a públicas e que empresas privadas são mais hábeis para criar fontes alternativas de renda. Enfim, justamente os argumentos dos grupos que pagaram ágios de mais de 600% nos aeroportos privatizados no começo de fevereiro.

Pinto acredita que a concessão dos aeroportos será um sucesso e que a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) será fundamental neste processo, criando um ambiente de negócio e de operações que permitirá um novo salto de qualidade na aviação civil brasileira. Entusiasta das privatizações, Pinto acredita que aeroportos pequenos podem estar no radar da companhia, que, recentemente, recebeu a entrada do Grupo Libra, dono de um terminal portuário no Rio de Janeiro, que agora detém 60% da Costa do Sol.

— Há vários aeroportos pequenos no país que hoje são considerados inviáveis e que podem ser mais lucrativos — resume o executivo.

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