terça-feira, 17 de julho de 2012

Pilotos demitidos pela Gol são disputados lá fora

15/07/2012 - O Estado de São Paulo

Companhias aéreas estrangeiras querem contratar comandantes brasileiros com experiência em operar aviões como o Boeing 737

A onda de demissões na Gol reacendeu o temor de o País ver uma nova leva de pilotos migrar para o exterior em busca de emprego, num movimento semelhante ao que aconteceu após a paralisação das operações da Varig em 2006.

Atentas à mudança de cenário, empresas internacionais de recrutamento e companhias aéreas estrangeiras começam uma corrida para tentar captar os profissionais desempregados hoje no mercado brasileiro.

Com a perspectiva de um novo impulso no fluxo de pilotos expatriados, o Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) já receia uma volta da situação vivida até o ano passado, quando a escassez de pilotos assombrava companhias aéreas nacionais. "Assim que o mercado brasileiro (de aviação civil) voltar a crescer, vamos ter falta de pilotos novamente", disse o secretário-geral da entidade, Sérgio Dias.

A notícia de que a Gol demitiria 2.500 pessoas este ano - incluindo pilotos, comissários e outros profissionais - chegou rápido a Dublin, na Irlanda, onde estão os escritórios da empresa de recrutamento Direct Personnel. Ao tomar conhecimento das dispensas pela aérea brasileira, a companhia entrou em contato com o sindicato e começou a procurar os pilotos desempregados para tentar levá-los para companhias aéreas estrangeiras.

"Contatei todos os pilotos afetados (pelas demissões) e mandei informações sobre as vagas disponíveis", diz a gerente Barbara Kelly. O próximo passo da empresa, agora, é trazer ao País as empresas que querem contratar. "O interesse desses profissionais tem sido alto, e eu já estou conversando com clientes da China e da África para levá-los ao Brasil para entrevistar os pilotos da Gol e fazer avaliação em simuladores." A busca por uma posição no exterior pode ajudar os pilotos dispensados a encontrar mais rapidamente uma vaga, num momento em que a situação é mais adversa do que a de 2006. Na época, companhias como TAM e Gol estavam em franca expansão e absorveram parte dos profissionais que ficaram sem trabalho com o fim da Varig. Hoje, depois de um ano marcado por um prejuízo conjunto de mais de R$ 1 bilhão, as duas empresas enxugam suas operações.

Os pilotos nacionais têm sido disputados principalmente por aéreas da Ásia, continente em que a aviação civil vem se desenvolvendo fortemente nos últimos anos e que não tinha um contingente significativo de pilotos. Mas outras regiões, como África e Europa, também têm oferecido vagas. Profissionais experientes, com milhares de horas voadas, os brasileiros são vistos com bons olhos pelo mercado internacional.

Segundo o consultor Nelson Riet, especialista no setor aéreo, a boa qualidade técnica dos profissionais não é o único motivo de seu prestígio no exterior. "Do fim da Varig para cá, os pilotos brasileiros firmaram conceito positivo, não só pela competência técnica, mas por sua boa capacidade de adaptação a outras culturas", explica. Ele vê as demissões da Gol como pontuais e acredita que o mercado brasileiro se recuperará, mas acredita que os pilotos que tiverem a possibilidade de trabalhar fora vão migrar.

Com quase 24 anos de experiência em grandes aéreas nacionais, o comandante Marcos Ferreira, 49, agora escolhe entre as ofertas de emprego de companhias estrangeiras, depois de ter deixado a Gol no mês passado. Uma delas é a Ethiopian Airlines, da Etiópia, que já manifestou interesse em voar para cá.

"A empresa está atrás de 30 pilotos para operar Boeing 737, mesmo avião em que voávamos na Gol. Eles pegarão pilotos praticamente prontos para voar", afirma o aeronauta, que também analisa oportunidades em companhias chinesas.

Além da possibilidade de ganhos mais elevados, que podem chegar a R$ 25 mil por mês para comandantes, as aéreas estrangeiras criam facilidades para atrair os brasileiros. A possibilidade de tirar 15 dias de folga a cada mês, por exemplo, permitiria que Ferreira viesse frequentemente ao Brasil, onde sua mulher atua também como piloto.

Atento aos processos de seleção, ele diz que a OK Airways, com base no gigante asiático, mandará representantes ao Brasil no mês que vem para recrutar. A Emirates, dos Emirados Árabes Unidos, que também tem recebido inscrição de candidatos no País, marcou datas este mês para receber currículos de aeronautas, incluindo comissários, de São Paulo e Porto Alegre.

Enquanto isso, o sindicato teme que movimentos de consolidação, como a fusão da TAM com a chilena LAN, possam resultar em novas reduções de pessoal. Procurada, a aérea diz que não há previsão de demissões por causa da criação do grupo Latam Airlines. O vice-presidente comercial da Azul, Paulo Nascimento, também negou que associação com a Trip resulte em enxugamento.

"Com o excesso de oferta que houve no mercado, as líderes (TAM e Gol) foram obrigadas a reduzir capacidade. No nosso caso, mesmo com a fusão, o plano de expansão continua", declarou. A previsão de crescimento da empresa, porém, não implica a possibilidade de realocação rápida dos pilotos da Gol. Como a Azul utiliza outros tipos de aeronaves, eles precisariam se requalificar.

● Mudança de rota
SÉRGIO DIAS
SECRETÁRIO-GERAL DO SINDICATO NACIONAL DOS AERONAUTAS 
“Assim que o mercado brasileiro (de aviação civil) voltar a crescer, vamos ter falta de pilotos novamente”

NELSON RIET
CONSULTOR
“Do fim da Varig para cá, os pilotos brasileiros firmaram conceito positivo, não só pela competência técnica, mas por sua boa capacidade de adaptação a outras culturas”

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