quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Governo errou em primeiro leilão de aeroportos 

30/08/2012 - Folha de São Paulo

ENTREVISTA - BERNARDO FIGUEIREDO
PRESIDENTE DA EPL, QUE COMANDARÁ PROJETOS DE INFRAESTRUTURA, DIZ QUE O QUE IMPORTA NÃO É O CONTROLE, MAS A QUALIDADE DOS SÓCIOS
FERNANDO RODRIGUES
DE BRASÍLIA

O presidente da recém-criada empresa que comandará investimentos de R$ 133 bilhões em cinco anos em ferrovias e rodovias, Bernardo Figueiredo, diz que o governo errou na primeira fase de concessão de aeroportos.

Para ele, teria sido necessário buscar empresas que tivessem mais experiência, o "estado da arte", para administrar aeroportos de Brasília, Guarulhos e Campinas, concedidos no primeiro semestre deste ano.

Em entrevista à Folha e ao UOL, o presidente da EPL (Empresa de Planejamento e Logística) afirmou que essa exigência fará parte dos novos leilões. Cita o caso do trem-bala entre São Paulo e Rio: "A gente não está aceitando operador com menos de dez anos de experiência".

Figueiredo, 61, é um dos operadores mais prestigiados no governo da presidente Dilma Rousseff. Mineiro, tem sete filhos de dois casamentos e mora em uma fazenda a 40 minutos do centro de Brasília. Fuma uma média de seis cigarros de palha por dia.

Os projetos serão formatados em conjunto com o Tribunal de Contas da União e com o Ibama. A ideia é evitar embargos posteriores de ordem legal ou ambiental.

Os dados de execução das obras serão colocados on-line em um site na internet.

Em março, Figueiredo teve seu nome rejeitado no Senado para mais um mandato na ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres). O revés foi comandado pelo senador Roberto Requião (PMDB-PR). Indagado se o paranaense equivocou-se nesse episódio, o presidente da EPL respondeu: "Em todos eu acho que ele está equivocado".

A seguir, trechos da entrevista (a íntegra está nos sites da Folha e do UOL), na qual Figueiredo afirma ainda que o Brasil dobrará o volume de carga transportada em ferrovias nos próximos cinco anos.

Folha/UOL - O governo vai interromper o modelo de concessão de aeroportos e dará preferência a um sócio privado com a Infraero, que se manteria majoritária?

Bernardo Figueiredo - A discussão é se é 49% ou se é 51% [do controle do aeroporto a cargo da Infraero]. Não me parece ter essa decisão já. O cuidado que vai se tomar é de a Infraero se associar com a tecnologia de ponta.

A qualificação dos operadores nas próximas concessões, seja em qualquer modelo for, vai ser um item importante.

O governo ficou insatisfeito com o resultado das concessões dos três aeroportos (Guarulhos, Brasília e Campinas)? Algo deu errado?

Agora no trem de alta velocidade [o TAV, apelidado de "trem-bala"] nós estamos tomando o cuidado para trazer para esse processo, a ponta... o estado da arte naquela área.

Isso não aconteceu nas licitações de aeroportos até agora?

Não houve essa exigência de qualificação de empresas para entrar no processo, que elas fossem o que há de melhor em termos de operação.

Então foi um erro?
É... foi um erro.

Nos próximos haverá a exigência?
É só tomar esse cuidado. É só não cometer de novo o mesmo erro.

Como se corrige o erro?
É exigir qualificação de quem vai participar. O fato de ter grupos que são menores ou não operam grandes aeroportos não quer dizer que isso vá ser um fracasso.

Não foi o desejável...
Não era... A Infraero tinha a oportunidade de trazer a tecnologia de ponta de operação de aeroporto no mundo. E não trouxe.

Não quer dizer que esses operadores sejam ruins. Quer dizer só que perdeu uma oportunidade de ser mais seletivo nessa operação. A gente está fazendo no trem de alta velocidade: não está aceitando operador com menos de dez anos de experiência.

O Senado rejeitou em março sua recondução para a ANTT. O governo tem maioria no Congresso. Não houve empenho?
Não sei. Vi a votação pela TV. Acho que se criou um ambiente falso a meu respeito.

O senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná, trabalhou contra o sr. Por quê?
Não tenho uma relação com ele.

Ele alega que houve divergência com o sr. a respeito da construção de uma ferrovia, quando ele era governador [do Paraná]. É isso mesmo?

Isso eu tive a oportunidade de explicar no processo que o ministro Paulo Bernardo [das Comunicações] moveu contra ele [Requião] e que ganhou na Justiça.

Quando lançou-se o PAC, existia a necessidade de melhorar o acesso a Paranaguá. Havia duas opções. Uma ligação que já existia e uma outra, que era a construção de uma ferrovia nova.

Fomos eu e o ministro Paulo Bernardo discutir com ele [Requião] qual era a melhor opção. E ele começou a dizer: "Ah, vocês querem fazer isso, isso e isso". Foi uma reunião que acabou rápido.

Nós nos retiramos. Ele insistia: "Quer ver que esse negócio custa R$ 150 milhões e não R$ 500 milhões?". Nós não tínhamos o valor.

Há risco agora de o Senado rejeitar a medida provisória que criou a EPL?
Seria lamentável. Isso afronta o que a sociedade toda e todos os agentes que estão envolvidos em logística acham que deve ser feito.

Nesse episódio, o senador Requião está equivocado?
Em todos eu acho que ele está equivocado.

O sr. já tomou bronca da presidente Dilma Rousseff? Como é sua relação com ela?
Minha relação com ela não é uma relação do dia a dia. Eu só encontro com a presidente em reuniões de trabalho.

Nessas reuniões ocorrem discussões. Eventualmente nós levamos projetos que têm fragilidades. E as broncas são em função de a gente não ter os cuidados necessários para levar um projeto mais consistente.

NA INTERNET
Assista à entrevista e leia a transcrição
folha.com/no1145392

FRASES

"A Infraero tinha a oportunidade de trazer a tecnologia de ponta no mundo. E não trouxe"

"Só encontro com a presidente em reuniões de trabalho. Eventualmente levamos projetos com fragilidades. As broncas são em função de a gente não ter os cuidados necessários"

RAIO-X: BERNARDO FIGUEIREDO

IDADE
61 anos

ORIGEM
Sete Lagoas (MG)
Foi para Brasília aos dez anos

FORMAÇÃO
Graduação em economia, pela UNB (1973)

CARREIRA
Trabalhou na Geipot (1973)
Trabalhou na Siderbrás (1977)
Trabalhou na Valec (2004)
Assessor de Dilma Rousseff na Casa Civil (2005)
Diretor da ANTT (2007)
Presidente da EPL (2012)

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