sábado, 11 de agosto de 2012

"Puxadinhos" da Infraero já equivalem a um Confins

10/08/2012 - Valor Econômico
Por Daniel Rittner e André Borges

Com dificuldades em acelerar as obras definitivas de ampliação de seus terminais, a Infraero já construiu o equivalente a um aeroporto de Confins em módulos operacionais provisórios, conhecidos tecnicamente como MOPs e apelidados de "puxadinhos".

Os módulos já foram instalados em dez aeroportos. Em outros quatro - Juazeiro do Norte (CE), Macapá (AP), São José dos Campos (SP) e Ilhéus (BA) -, estão em obras, em fase de licitação ou em desenvolvimento de projeto. Ao todo, a Infraero calcula que os módulos ampliam a capacidade do sistema em 10,6 milhões de passageiros por ano. Esse volume supera em 400 mil passageiros toda a capacidade de atendimento de Confins, em Belo Horizonte, o quinto aeroporto mais movimentado do país no primeiro semestre deste ano.

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 A Infraero reconhece que a instalação dos MOPs - a estatal evita usar o termo "puxadinho" - deixou de ser uma saída temporária para resolver o gargalo nos aeroportos e veio para ficar. "Até hoje não tivemos nenhuma notificação de problema nos módulos. É uma solução barata e rápida, com a vantagem de podermos retirá-los e colocá-los onde quisermos", afirma o presidente da Infraero, Gustavo do Vale.

A vida útil média dos módulos é estimada em 15 anos. Vale lança a ideia de usar os módulos - que usam materiais mais simples, como chapas de madeira e frisos metálicos, e são implantados rapidamente - em pequenos aeroportos do interior do país. O governo prepara um plano de aviação regional, com investimentos de até R$ 4 bilhões, que deverá aumentar, de 130 para 210, o número de cidades atendidas por voos comerciais regulares. "Acredito que praticamente 100% dos aeroportos regionais têm condições de ter esses módulos", afirma o presidente da Infraero.

As estruturas provisórias de terminais de passageiros começaram a ser implementadas pela Infraero no fim de 2010, como uma resposta rápida para minimizar o estrangulamento que tomava conta dos principais aeroportos. Mais do que a rapidez para montar as estruturas, o governo se entusiasmou com o orçamento. Para instalar módulos em dez aeroportos e ampliar a capacidade de atendimento em mais de 10 milhões de passageiros, a Infraero gastou R$ 44 milhões.

A iniciativa desagrada às grandes empresas de construção civil, que enxergam nos "puxadinhos" um atalho fácil para desviar o foco de obras de infraestrutura definitivas. Só para dar uma ideia da diferença de custos: a reforma e a ampliação do aeroporto de Fortaleza, um dos principais investimentos em curso pela Infraero, teve contrato assinado no valor de R$ 337 milhões. O ganho de capacidade será de 8 milhões de passageiros, até o fim de 2016, menos do que o conjunto de 15 módulos operacionais que estão sendo implantados.

As companhias aéreas chamam a atenção para o fato de que os "puxadinhos" têm sido insuficientes para acompanhar o crescimento da demanda e não mudam o panorama negativo do setor. O Sindicato Nacional das Empresas Aéreas (Snea) diz, em nota, que "as áreas dos terminais de passageiros continuam bastante abaixo do nível de serviço preconizado pela Iata" e que "a implantação de módulos provisórios em alguns aeroportos pouco alterou a situação até então existente". A Iata é a associação internacional de transporte aéreo, que define níveis de qualidade seguidos por autoridades aeroportuárias de todo o planeta.

Essa visão crítica é compartilhada por Elton Fernandes, especialista em transporte aéreo e professor da Coppe, o instituto de pesquisa de engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Para ele, os módulos operacionais são uma "ação paliativa" e refletem o abandono do planejamento no setor aeroportuário na última década, apesar de todos os sinais de que a demanda ia explodir. "Chegou-se a essa situação por ineficiência na gestão e falta de planejamento."

O representante de vendas Jovânio de Souza, que viaja pelo menos uma vez por mês e passava ontem pelo aeroporto de Brasília, resumiu uma impressão generalizada sobre os "puxadinhos": "Eles são feios, parecem caixotes, mas é melhor esperar o voo em um deles, sentado, do que ficar em pé em um terminal que já está muito saturado".

Fernandes reconhece que pode haver ganho de conforto temporário, dando mais espaço e reduzindo o aperto dos passageiros. Apesar disso, diz, os módulos operacionais demonstram a "incapacidade" da Infraero em acelerar a execução de obras duradouras.

Essas obras, como as que estão em andamento nos aeroportos de Confins e Manaus, ainda se encontram em fase inicial. Segundo o último balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), divulgado há duas semanas, a ampliação do terminal de passageiros de Manaus tinha apenas 7,6% dos serviços realizados até o fim de abril. A reforma e modernização de Confins estava com 4,8% dos trabalhos executados. As duas obras têm previsão de entrega em dezembro de 2013.

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