quarta-feira, 5 de setembro de 2012

O futuro da Gol, segundo analistas

04/09/2012 - Valor Econômico

Por Ney Hayashi e Lucia Kassai, Bloomberg 

A dívida líquida de US$ 1,6 bilhão (R$ 3,2 bilhões) da Gol, o maior dentre o de todas as grandes companhias áreas do mundo em relação aos lucros, está alimentando especulações de que a companhia vai vender ativos para levantar caixa, ou vai se fundir a outra companhia aérea.

O endividamento líquido da Gol chegou a 25 vezes o lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização (Ebtida, na sigla em inglês) nos 12 meses encerrados em 30 de junho, a maior relação entre 31 companhias aéreas com valor de mercado de mais de US$ 1 bilhão, segundo dados compilados pela Bloomberg. Isso se compara a uma relação de 3,4 para a Latam Airlines, do Chile; 1,3 para a United Continental, dos Estados Unidos; e 0,2 para a companhia aérea de descontos Ryanair, a menos endividada do mundo.

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 A Gol nomeou um novo presidente-executivo, eliminou empregos e reduziu o número de voos neste ano, depois de registrar perdas em quatro dos últimos cinco trimestres e ceder participação de mercado à TAM, da Latam Airlines. A Gol pretende abrir o capital de sua unidade de programas de milhagem Smiles no segundo semestre de 2013, segundo informou uma pessoa a par da transação à Bloomberg em 15 de agosto. "Não gostaria de estar na pele deles", diz Eric Conrads, que ajuda a administrar US$ 1 bilhão em ações para o ING em Nova York. "Eles poderiam aumentar os preços das passagens, mas eles não são líderes de mercado e isso significa que eles sacrificariam mais participação de mercado. E eles não estão em posição de sacrificar participação de mercado no momento."

Uma decisão sobre a abertura de capital da Smiles será tomada até o fim do ano, segundo disse o diretor financeiro da Gol, Edmar Prado Lopes Neto, em uma entrevista por telefone em 28 de agosto. A ação da Gol subiu 1,4% na Bolsa de Valores de São Paulo em 31 de agosto, para R$ 9,70, levando a perda acumulada no ano para 22%, em comparação à valorização de 0,5% do índice Bovespa.

A ação da Gol, segunda maior companhia aérea brasileira em valor de mercado, é negociada a 1,7 vezes o valor contábil, em comparação a 2,2 para a Latam Airlines e 1,2 para o índice Bovespa. A companhia de São Paulo está tentando transformar a Smiles em uma unidade de negócios separada até o fim do ano, antes de iniciar o processo de abertura de capital, segundo disse uma fonte familiarizada com o plano, que pediu para não ser identificada porque as negociações são sigilosas.

A Gol anunciou em dezembro que a Delta Air Lines, a segunda maior companhia aérea do mundo em tráfego, acertou a compra de uma participação de US$ 100 milhões e que as duas companhias começarão a agendar passageiros nos aviões uma da outra.

"A Gol apresentou alguns resultados bem fracos nos últimos trimestres, com a moeda mais fraca elevando cada vez mais o endividamento da companhia, disse Fausto Gouveia, que ajuda a administrar R$ 380 milhões na Legan Administração de Recursos, em uma entrevista por telefone de São Paulo. "Eles precisam fazer algumas grandes mudanças para recuperar as coisas. Vender a unidade Smiles seria um passo positivo."

O endividamento líquido da companhia atingiu R$ 3,27 bilhões em junho, dos quais 70% estão atrelados ao dólar. O real acumula uma desvalorização de 8,1% no ano, a moeda de pior desempenho entre os 25 mercados emergentes monitorados pela Bloomberg.

"A maior parte de nossa dívida vence em quatro anos a partir de agora", diz Lopes Neto, o diretor financeiro da Gol. "Até lá, as margens serão recuperadas."

Medidas recentes de corte de custos poderão ser suficientes para aliviar a pressão para a venda de ativos ou para uma fusão, diz Henrique Florentino, analista da UM Investimentos. "As margens operacionais devem melhorar nos próximos trimestres", diz ele, que tem uma recomendação de "manter" para a ação. A Gol não vê espaço para uma redução nos preços das passagens mesmo no momento em que a TAM conquista mais passageiros, disse Paulo Kakinoff, que assumiu como presidente-executivo em julho, em uma entrevista por telefone em 16 de agosto.

"A pressão dos custos é tão alta no momento, que não conseguimos pensar em uma redução do yield", disse ele. Yield é o preço médio da passagem para cada assento por quilômetro voado, um índice que reflete a receita e a demanda. A participação de mercado da Gol caiu para cerca de 33% em julho, em comparação a 38% um ano antes, enquanto que a da TAM aumentou de 41% para 42%.

A perda de participação de mercado poderá aumentar as pressões para uma fusão, na medida em que o setor doméstico de transporte aéreo for se consolidando, diz Laurence Balter, que supervisiona US$ 100 milhões para a Oracle Investment Research, nos Estados Unidos. Segundo ele, as medidas de corte de custos poderão não ser suficientes. (Tradução de Mario Zamarian)

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