quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Nasce em São João da Boa Vista novo polo aeronáutico

21/07/2013 - O Estado de S.Paulo

Iniciativa da prefeitura já atraiu duas empresas para a cidade

Marina Gazzoni / TEXTO
Werther Santana / FOTOS
ENVIADOS ESPECIAIS
SÃO JOÃO DA BOA VISTA (SP)

Líder. Caio Jordão sócio fundador da Inpaer, o primeiro a chegar em São João

O Aeroporto Municipal de São João da Boa Vista, localizado a 215 km de São Paulo, estava praticamente às moscas até um ano atrás. Sem voos regulares, a pista de 1,5 mil metros – maior do que as duas pistas do Santos Dumont, no Rio – era usada apenas por 15 proprietários de aviões. Para dar vida ao espaço, a prefeitura correu atrás de fabricantes de aviões com a proposta de criar um polo aeronáutico dentro do aeroporto. Até agora, duas empresas aceitaram o convite – e os incentivos fiscais – e transferiram suas fábricas para o local.

"Começamosaolharonossoaeroporto com uma visão de negócios", disse Amélia Queiroz, diretora de planejamento da prefeitura de São João da Boa Vista,um município de cerca de 85 mil habitantes.

A primeira a mudar sua sede para o município paulista foi a Indústria Paulista de Aeronáutica (Inpaer), criada em 2001, em Campinas, com foco em aviões esportivos. A empresa ocupava um hangar de 2,5 mil metros quadrados no Aeroporto Estadual Campo dos Amarais até o ano passado. "Estávamos saindo da fase de fundo de quintal para um profissionalismo. Para crescer, tínhamos de sair de lá", conta o sócio-fundador da empresa, Caio Jordão.

A solução começou a aparecer seis anos atrás, quando um piloto amador bateu à porta da Inpaer com um recado do então prefeito de São João da Boa Vista. A prefeitura tentava tirar da gaveta o projeto de criação do polo aeronáutico, que já existia quando o aeroporto foi construído no fim dos anos 70.

O prefeito da época pediu ao amigo Antonio Curtiu para convidar alguns fabricantes a se mudar para a cidade. "Não conhecia a Inpaer. Tinha procurado uma concorrente e ouvi um não. Meses depois li em uma revista de aviação sobre um avião novo da empresa e decidi procurá-los", lembra Curtiu.

A Inpaer passou a negociar com a prefeitura sua transferência para a cidade, em troca de incentivos: doação de terreno para a fábrica, isenção de impostos municipais por 20 anos e apoio à contratação de mão de obra.

A nova fábrica foi inaugurada em 2012, em um galpão de 7 mil metros quadrados, dentro do aeroporto da cidade. Lá trabalham 80 pessoas e são produzidos entre sete e oito aviões por mês, de quatro modelos diferentes.

A segunda a integrar o polo aeronáutico de São João da Boa Vista foi a Golden Flyer, fabricante do avião anfíbio Seamax. A companhia estava havia 12 anos no mercado e tinha até o ano passado sede no Clube Esportivo de Voo (CEU), em Jacarepaguá, no Rio. O local, no entanto, será demolido para dar espaço para o Parque Olímpico.

"Precisávamos de uma nova sede. Seis cidades se ofereceram para nos doar terrenos. Viemos para cá porque ganhamos um espaço dentro do aeroporto e há uma proposta de qualificação de mão de obra", disse Ernesto Paulozzi Junior, um dos sócios da empresa, que acumula 120 aeronaves entregues, 90 delas para exportação. A Golden Flyer está provisoriamente em um galpão no distrito industrial da cidade, até que sua fábrica no aeroporto fique pronta.

Efeito cascata. Para fazer o polo aeronáutico decolar, a prefeitura aposta que os próprios empresários chamem seus parceiros e fornecedores para abrir unidades na cidade. A Inpaer, por exemplo, fechou no ano passado uma joint venture com a Aerogard, que monta aviões importados e tem sede em Itápolis (SP). A empresa já aprovou a transferência de sua fábrica para São João da Boa Vista, ao lado da Inpaer, em um terreno que ocupa uma área de 21 mil metros quadrados.

"Temos 28 funcionários em Itápolis e vamos contratar uns 80em São João quando a fábrica daqui ficar pronta. A área construída vai dobrar para 6 mil metros quadrados", conta o empresário Hélio Gardini, sócio da Aerogard. Hoje a empresa monta em média 20 aviões por ano de seis modelos diferentes, como os esportivos RV-7 e o RV-9, da americana Van's Aircraft.

Além da Inpaer e da Golden Flyer, a prefeitura negocia com cinco empresas do setor, entre fabricantes de aeronaves e de peças. Mas, antes de acomodar novas fábricas, o município quer fazer um plano diretor para planejar a ocupação do terreno do aeroporto, uma área de 415 mil metros quadrados.

Além de abrigar fabricantes de aeronaves, o município quer avaliar se poderá receber operações de carga e voos regionais. São João da Boa Vista não está na lista dos 270 aeroportos que o governo pretende reformar para receber voos regionais, mas o prefeito diz que fará de tudo para convencer o governo que merece o investimento.

Dezenas de empresas fabricam aeronaves próprias no Brasil

● A Embraer é certamente a fabricante de aviões mais famosa do País, mas não é a única. Existem diversas pequenas e médias empresas no Brasil que fazem principalmente aeronaves leves. "Algumas fazem seus próprios aviões e outras montam kits importados", disse o presidente da Associação Brasileira de Fabricantes de Aeronaves Leves (Abrafal), Hermano Vianna. "Muitas delas nasceram de um engenheiro maluco que desenhou seu próprio avião", diz Vianna.

No Brasil existem 19,7 mil aeronaves registradas, de Boeing 777 a ultraleves, segundo dados de 2012 da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). "Cerca de 30% disso são aeronaves leves", lembra Vianna.

A Abrafal reúne 22 associados, que produzem juntos cerca de 250 aviões por ano. A maioria das empresas está perto de aeroportos secundários, sem voos comerciais. Segundo o presidente da associação, essas fabricantes estão espalhadas pelo Brasil aleatoriamente e não existem cidades que formam polos aeronáuticos fortes, a exemplo de São José dos Campos, que cresceu fomentado pelos negócios da Embraer.

O setor emprega cerca de 3 mil pessoas e enfrenta dificuldades para se desenvolver no País. Segundo Vianna, o principal entrave é a falta de acesso a linhas de crédito. / M.G.

● Aeroporto sem voo
Existem hoje cerca de 3 mil aeroportos no Brasil, mas apenas 122 deles recebem voos de companhias aéreas.

CIDADE INVESTE EM CURSOS E QUALIFICA MÃO DE OBRA

Marco Sacardo, 42 anos,decidiu abandonar umacarreirade20anoscomolocutor de rádio para correr atrás do sonho de trabalhar com aviação quando soube que sua cidade, São João da Boa Vista, teria uma fábrica de aviões.Emjunhode2009,se inscreveu em um curso de mecânica básica no Senai, o primeiro de 13 que fez na instituição. "Eumevia fazendo o avião, mas não tinha qualificação."

O antigo locutor da cidade foi contrato pela Inpaer em 2010, antes mesmo da fábrica na cidade ficar pronta e ficou um ano e meio em treinamento na antiga unidade de Campinas. Ele começou como auxiliar de montagem e hoje é líder da seção que fabrica e monta a asa do avião. A mudança compensou: hoje o salário é mais que o dobro do emprego anterior.

Sacardo, assim como muitos dos funcionários da empresa, nunca tinha viajado de avião. A primeira aeronave em que voou foi um modelo esportivo, que ele ajudou a construir. Ele foi um dos funcionários treinados no Senai especificamente para as necessidades de mão de obra da Inpaer. "Chegamos a investir R$ 5 milhões por ano para oferecer cursos técnicos gratuitos na cidade", disse a diretora de planejamento da prefeitura de São João da Boa Vista, Amélia Queiroz. "Foi o nosso pulo do gato."

Além do aeroporto, o município tenta desenvolver seu distrito industrial, que recebeu 70 novas empresas nos últimos 8 anos. "O diferencial para atrair empresas não é doar terreno. É formar mão de obra", disse Amélia.

O Senai fez cursos técnicos de aeronáutica para cerca de 300 profissionais. Até o professor do Senai, o engenheiro Claudio Correa, foi trabalhar na primeira fábrica de aviões da cidade. "Saí da sala de aula para trabalhar com engenharia de verdade."

As universidades da região também estão se adaptando. O Centro Universitário das Faculdades Associadas de Ensino (Unifae), uma instituição municipal, já oferece cursos de engenharia mecânica e elétrica e estuda criar uma pós-graduação na área de aeronáutica. A universidade também anunciou na semana passada a criação de um curso de Ciências Aeronáuticas, para formar pilotos. A Universidade Estadual Paulista (Unesp) criou em março de 2012 um campus experimental na cidade, com o curso de engenharia de telecomunicações. Segundo o coordenador da unidade, Josué Vieira Filho,o campus está pleiteando coma reitoria a abertura de um curso de Engenharia Aeronáutica.


Aposta. Sacardo abandonou a carreira de locutor para montar

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