segunda-feira, 13 de abril de 2015

Sem crédito, Viracopos já tem atraso de quase um ano em obras

12/04/2015 - O Globo

Consórcio espera empréstimo do BNDES. Sócia faz parte da Lava-Jato

LINO RODRIGUES

lino.rodrigues@sp.oglobo.com.br

"Temos orgulho do que fizemos até agora. Falta só um terço das obras" Luiz Alberto Küster

Presidente da Aeroportos Brasil

Perto de completar um ano de atraso na entrega das obras, que deveriam ter sido concluídas em maio de 2014, um mês antes da Copa do Mundo, a Aeroportos Brasil, concessionária do aeroporto de Viracopos, em Campinas, no interior paulista, ainda depende de um segundo empréstimo de R$ 600 milhões junto ao BNDES para cumprir o que prometeu quando assinou o contrato de concessão, em fevereiro de 2012. A empresa admite que os problemas da sua sócia, a UTC Participações, alvo da operação Lava-Jato, da Polícia Federal, têm prejudicado não só a liberação do dinheiro do BNDES, como a obtenção de crédito no mercado. Procurado, o BNDES não comenta o assunto.

michel filho


Aniversário. Prestes a completar um ano de atraso, obras do aeroporto de Viracopos estão incompletas. Gastos na primeira etapa já superam R$ 3,3 bilhões

INAUGURAÇÃO ÀS PRESSAS

O descumprimento do prazo também já rendeu um auto de infração após uma inspeção técnica da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), e que pode acabar em multa de até R$ 170 milhões, conforme a previsão máxima para este tipo de irregularidade. A conclusão das obras, agora prevista para setembro, segundo o presidente da concessionária, Luiz Alberto Küster, só irá acontecer se o BNDES liberar o financiamento ainda este mês. Sem os recursos do banco de fomento, fornecedores — que estão com pagamentos atrasados há meses — e passageiros terão que continuar esperando.

Inaugurado às pressas para atender ao cronograma de desembarques de algumas seleções que vieram para a Copa (Portugal e Japão, entre elas), em junho do ano passado, o novo terminal permanece inacabado. Exclusivo para operação internacional, os problemas são muitos e, no mínimo, atrapalham a ainda pequena movimentação de usuários que desembarcam ou embarcam em um dos sete voos diários (37 por semana).

Eles têm que desviar de tapumes, atravessar passagens improvisadas, caminhar por corredores escuros e dividir o espaço com operários em plena atividade. Falta também colocar o forro na estrutura de metal do prédio, que está com a fiação e canos do ar-condicionado aparentes, e terminar a área que abrigará os voos nacionais, cujas portas de entrada ainda estão cobertas por tapumes. Até setembro, se tudo correr como espera Küster, os guichês das viagens domésticas deverão migrar do terminal antigo, que também passou por reformas no primeiro ano de concessão, para o novo.

— Temos orgulho do que fizemos até agora. Falta só um terço das obras — tenta justificar Küster, um dos mais otimistas no início das obras e que chegou a dizer que o "novo" aeroporto de Campinas seria entregue dois meses antes do prazo previsto.

O primeiro ciclo de obras, que inclui a construção do terminal de passageiros, que deveria ser entregue em 11 de maio de 2014, já consumiu R$ 3,3 bilhões, valor bem acima da previsão de R$ 2,6 bilhões. No total, terão quer ser investidos R$ 9,52 bilhões nos 30 anos da concessão.

MUDANÇA NO PROJETO

Para Küster, as reformas da pista e pátios, a construção de taxiways (faixas de pista em que o avião pode taxiar para um hangar, terminal ou pista) e de novos acessos, que permitiram atender com folga o tráfego de passageiros e de jatos particulares durante a Copa, foram entregues no prazo. O mesmo aconteceu com o novo edifício garagem.

— Levamos 22 meses construindo coisas que demandariam de três a quatro anos para construir — disse ele, embora os prazos para a entrega das obras fossem conhecidos desde a apresentação do edital de licitação.

O problema do terminal de passageiros, alega Küster, teria sido a mudança no projeto que aumentou a capacidade do aeroporto de 14 milhões para 25 milhões de passageiros/ano. Além do atraso, que já soma 11 meses, as alterações resultaram em aumento do custo da obra. O executivo diz que notificou a Anac e pediu um prazo maior, mas que o órgão fiscalizador não teria se manifestado, o que acabou gerando a ameaça de multa. Além disso, diz que mudanças exigidas por órgãos públicos, paralisações de funcionários, acidentes (um deles com vítima fatal) e várias autuações do Ministério Público do Trabalho (MPT) contribuíram para o atraso.

Além da UTC, que está com seu presidente, Ricardo Pessoa, preso na Lava-Jato, suspeito de pagar propina para obter contratos com a Petrobras, a Aeroportos Brasil tem como sócios a Triunfo Participações (45%) e a francesa Egis Airport ( 10%). Juntas, elas detêm 51% do capital. A Infraero, estatal que administra os aeroportos públicos, também participa da sociedade com os 49% restantes.

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