terça-feira, 2 de junho de 2015

Especial: saudade dos aviões da PANAIR

02/06/2015 - Portal UOL


História da Panair do Brasil, a companhia aérea que foi desmantelada pelo governo militar em 1965


ANDERSON LAMARCA


O Douglas DC-7 foi o principal avião da Panair do Brasil em rotas internacional nos anos 1950 e 1960

O título desse artigo traz o nome de uma música de autoria de Milton Nascimento e Fernando Brant, e que foi lançada em 1974, na voz de Elis Regina.

Esta canção fora originalmente rebatizada de "Conversando no bar", como reflexo do medo que se sentia numa época onde as pessoas eram proibidas de expressar seus sentimentos de saudades da Panair do Brasil, uma grande e mundialmente respeitada Companhia Aérea que, por ação dos militares, foi desmantelada, sem maiores explicações, nos primeiros meses após o Golpe de 1964.

A cassação da Panair do Brasil, de fato, foi recebida como um baque, não só pelo setor aeronáutico, mas pelo meio empresarial e toda a sociedade. Até então, aquela era a mais consolidada e tradicional empresa aérea do país, um império verde e amarelo celebrado em prosa e verso. E tudo aconteceu literalmente do dia para a noite. Em 10 de fevereiro de 1965, a companhia operava dentro de seus padrões técnicos internacionalmente reconhecidos, quando, por volta das 17h, um dos diretores – que era militar e havia sido colocado na gestão por influência da Aeronáutica – chegou ao diretor-presidente com um telegrama assinado pelo Presidente da República, Marechal Castelo Branco, e pelo Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Eduardo Gomes. No curto texto, as autoridades informavam que as concessões da Panair estavam sendo suspensas e imediatamente transferidas à Varig, cujo proprietário, Ruben Berta, era um conhecido aliado do governo militar.

À noite, tropas do Exército e Aeronáutica invadiram as oficinas e hangares da Panair. No Galeão, um DC-8 da companhia já se preparava para receber os passageiros que embarcariam para a Europa. O avião, entretanto, não decolou, mas os passageiros não enfrentaram problema algum, pois, de algum modo, a Varig já tinha um Boeing 707 no pátio, pronto para seguir viagem. Vale lembrar que, à época, a Varig só voava para os Estados Unidos e o Japão. A substituição imediata surpreendeu, mas ficava claro que o fechamento da Panair já havia sido planejado.


Consolidated Commodore sobrevoa o Rio de Janeiro em 1930. O Cristo Redentor ainda estava sendo construído

Cinco dias depois, a falência da companhia foi oficialmente decretada e o governo se apossou dos ativos da empresa. As rotas nacionais e os Caravelle foram repassados para a Cruzeiro e os DC-8 e as rotas internacionais foram transferidos para a Varig.

A Celma, a subsidiária da Panair que fazia a manutenção das turbinas aeronáuticas civis e militares no Brasil, foi estatizada, e anos mais tarde novamente privatizada, sendo comprada pelo grupo GE. O estratégico Departamento de Comunicações da Panair foi simplesmente renomeado TASA (Telecomunicações Aeronáuticas S.A.), e, desde 1996, funciona sob os cuidados da Infraero.


Padrão de cores do Constellation da Panair do Brasil

Surgimento da Panair do Brasil

Em 7 de Março de 1929 nascia a NYRBA (New York-Rio-Buenos Aires Line), uma companhia aérea que operou hidroaviões de Nova Iorque para o Rio de Janeiro e Buenos Aires, além de localidades intermediárias da América Central e do Sul.

A companhia foi fundada pelo Coronel americano Ralph A. O'Neill, que foi condecorado como piloto na Primeira Guerra Mundial, sendo também uma figura relevante para o estabelecimento da aviação civil e militar no México. Nomeado como representante exclusivo da Boeing e da Pratt & Whitney para toda a América Latina em 1927, idealizou a possibilidade de uma linha aérea que ligasse o continente durante suas viagens.


Passageiros embarcam no PBY Catalina. O hidroavião foi muito utilizado nas rotas da Panair na Amazônia

O primeiro voo ocorreu em 11 de junho de 1929 com um hidroavião Sikorsky S-38. Em 15 de outubro, a NYRBA foi autorizada a voar para o Brasil e em 23 de dezembro foi inaugurada a rota Rio de Janeiro – Buenos Aires.

Em 24 de janeiro de 1930 foi criada a NYRBA do Brasil, pois a legislação brasileira só dava condições iguais de competição se a companhia tivesse uma subsidiária fundada localmente. Com a medida, no mesmo dia, a NYRBA realizou seu voo inaugural no Brasil, entre Rio de Janeiro e Fortaleza, com escalas em Campos, Vitória, Caravelas, Ilhéus, Salvador (pernoite), Aracaju, Maceió, Recife e Natal. No total, a viagem durava 34h50 em cada sentido da rota.

Voos regulares começam com os hidroaviões Consolidated Commodore em 19 de fevereiro, ligando em seis dias Buenos Aires a Miami. Nos EUA, no entanto, o governo não apoiava a NYRBA, que estava mergulhada em dívidas. Era um período muito difícil para economia americana, mas sua rival, a Pan Am, gozava de imbatível prestígio em Washington. Vencido pelas dívidas e pela pressão política de bastidores, O`Neill vende a NYRBA em agosto de 1930 para a Pan Am. No Brasil, a empresa mudaria de nome, refletindo a ligação com sua controladora. Nascia assim a Panair do Brasil.

A Panair recebeu 8 novas aeronaves, 4 Commodore e 4 Sikorsky S-38. Em 2 de março de 1931, decolaram os primeiros voos de passageiros, ligando Belém ao Rio de Janeiro (que levava cinco dias). As rotas ainda tinham conexão com as rotas da Pan Am.


A Panair do Brasil chegou a ter 20 Douglas DC-3, que depois seriam repassados à Varig

Somente em 1935, a companhia passou a ter o seu primeiro piloto brasileiro. Até então, a tripulação era somente norte-americana. Em 1936, começa a primeira modernização da frota, com a gradual substituição dos Commodore por Sikorsky S-43 Baby Clippers, de maior capacidade e mais velozes. A empresa também adquiriu dois Fairchild 91 e dois Lockheed 10E "Electra", iniciando assim as operações em "terra"com destinos em Belo Horizonte e São Paulo.

Na Segunda Guerra Mundial, a Panair, autorizada pelo governo brasileiro, construiu, operou e manteve os aeroportos de São Luis, Fortaleza, Belém, Natal, Recife, Maceió e Salvador. Além disso, a companhia assumiu algumas rotas da Syndicato Condor (futuramente Cruzeiro do Sul), pois esta estava com dificuldades para receber peças para as suas aeronaves de origem alemã.

Em 1941, a Panair se tornou a primeira operadora internacional do famoso quadri-motor Lockheed Constellation. Com esse avião, em 27 de Abril de 1941, foram inaugurados os voos para Europa, na rota Rio de Janeiro – Recife – Dakar – Lisboa – Paris – Londres. As cidades de Roma, Cairo, Istambul, Hamburgo, Dusseldorf, Zurique e Frankfurttambém foram atendidas pela malha aérea da empresa. Em menos de três anos após a viagem inaugural, a Panair já havia realizado mil voos para a Europa, transportando mais de 60 mil passageiros.

E a Panair seguia crescendo, chegando em seu auge a operar com 23 Douglas DC-3, 12 Lockheed L-049/149 Constellation, e 8 PBY-5 Catalina nas rotas amazonenses.


Foto do aeroporto Santo Dummont, no Rio de Janeiro. Passageiros também embarcavam em porta-aviões

A Panair também foi uma das primeiras companhias aéreas do mundo a operar aviões jato. Seu presidente, Paulo Sampaio, foi à Inglaterra e anunciou a compra de 2 aeronaves De Havilland Comet 2, transação cancelada em razão dos problemas enfrentados pelo Comet 1. Em seu lugar, foram adquiridos seis Douglas DC-7 que, por sinal, inauguraram em conjunto com a empresa TAP de Portugal os "Voos da Amizade" ligando o Rio à Lisboa.

30 anos, 70 destinos

Em 1959, ao completar 30 anos, a Panair já havia realizado com êxito 5.827 travessias do Atlântico. Voava para mais de 70 cidades de Beirute à Santiago, numa malha que percorria 110.000 km. Era uma das maiores do mundo.

A companhia também foi responsável por levar e trazer de volta a seleção brasileira de futebol nas Copas de 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile. As viagens foram feitas a bordo dos DC-7C.

A Varig foi pioneira no Brasil a operar aviões a jato, em 1959, e a Panair correu para adquirir os seus também, o que aconteceria somente em 20 de julho de 1962 com a chegada de 4 Sud Aviation Caravelle VI-R, com os quais a Panair foi pioneira na introdução de aeronaves a reação em linhas domésticas, encurtando consideravelmente o tempo das viagens.


O Lockheed Constellation voava para a Europa e Oriente Médio

Os belíssimos Caravelle operavam um misto de rede doméstica e internacional. Uma vantagem de ter comprado os modelos foi que a Panair ganhou o direito de ser uma das primeiras companhias a receber o supersônico Concorde, no entanto, a empresa foi fechada antes que isso pudesse se concretizar.

Intervenção militar

Em 1964, o governo militar assume o poder no Brasil e classificava a relação entre a Panair com a Pan Am como "ameaça a soberania nacional". Para piorar a situação, os executivos da Panair tinham laços com os ex-presidentes Juscelino Kubitschek, João Goulart e Jânio Quadros, fazendo a empresa uma "inimiga" do governo militar.


Um antigo Constellation com as cores da Panair do Brasil está preservado no Museu da TAM

O desfecho veio em 10 de fevereiro de 1965, quando o presidente da Panair recebeu um telegrama do governo dizendo que o certificado de operação da empresa foi cassado. A mensagem era simples e dava conta que a cassação ocorrera em razão da condição financeira insustentável da empresa. A atitude do governo provocou o desemprego de cerca de 5 mil funcionários da empresa, além de ter isolado quarenta e três cidades da Amazônia, pois nenhuma outra cia aérea operava os hidroaviões Catalina, os únicos que alcançavam aquelas localidades.

Acabava assim, de forma súbita e sem explicações, uma das companhias mais românticas que já voou pelos céus do Brasil.

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